Por Carlos Eduardo Spadin*
crédito foto: Divulgação/ Arquivo pessoal
ARTISTA DA CIDADE JÁ COMEÇOU A PINTAR O PAINEL COM MAIS DE 440 METROS QUADRADOS. O artista plástico Fábio Henrique de Andrade, natural de Leme, ficou conhecido nacionalmente quando se apresentou em programas da TV Globo (2012 e 2015) e da Rede Record (2016). Na ocasião, mostrou a técnica conhecida como lightpainting (literalmente, pintura com a luz), uma técnica fotográfica que utiliza o movimento de uma fonte luminosa em ambiente escuro para criar desenhos com o rastro da luz.
O artista plástico e empresário lemense Fábio Andrade é o responsável pelo trabalho de pintar o maior mural de grafite de Leme. Ao lado de uma equipe, o painel terá 440 m² (200 metros de largura por 2,20 metros de extensão) e vai ocupar um dos muros da empresa Violin (New Age Bebidas), localizado no final da Avenida Berta Buhrhein.

Trata-se da estreia do projeto “Leme em Cores”, de iniciativa da Prefeitura de Leme, por meio da Secretaria de Cultura e Turismo. O trabalho deve contar com a participação de alunos de escolas do município, como Waldemar Ferreira, Coopel, Dona Júlia e APAE. Os alunos não apenas vão acompanhar o projeto, como também poderão contribuir com a pintura do mural.
Ao todo, o projeto envolve uma equipe de dez artistas. Além de Fábio Andrade, também participam Jaqueline Andrade, Giulia da Costa, Evaldo Finnetti, Gabriel Piva, Laura Freie, Lorena Andrade, André Rádio, Raissa Geremias e Érico Rato.
Segundo publicação da Secretaria, “mais do que colorir um muro, a iniciativa busca despertar o sentimento de pertencimento, incentivar a preservação dos espaços urbanos e criar novos pontos de interesse cultural e turístico para a cidade”.
A apresentação do primeiro mural urbano da cidade está prevista para o dia 27 de agosto e será aberta ao público. Segundo a Prefeitura, o evento contará com distribuição de lanches e bebidas, apresentação de DJ e uma estrutura com tenda.
Atualmente, Andrade é proprietário, diretor-geral e professor do EFA – Espaço Fábio Andrade, que, além de escola, também funciona como ateliê, molduraria e galeria. Ele conversou com O Popular de Leme sobre sua participação no projeto “Leme em Cores” e a importância da arte no cotidiano. Confira os principais trechos da entrevista:
O Popular de Leme: Como é realizar um trabalho como esse na sua cidade natal?
Fábio Andrade: Pintar Leme é diferente de qualquer outro trabalho. Cada ponto turístico que aparece no mural é um lugar que eu conheço desde criança — a luz de determinada hora do dia, a cor do rio, a silhueta do casarão histórico. Não estou representando uma cidade que observei de fora. Estou traduzindo algo que está dentro de mim há décadas.
Há uma responsabilidade enorme nisso — e, ao mesmo tempo, uma leveza. Porque, quando você pinta o lugar onde cresceu, não precisa pesquisar a alma do lugar. Você já a carrega.
Ver o muro se transformar dia após dia, ver as pessoas parando, fotografando, perguntando sobre os pontos da cidade — isso valida algo em que acredito profundamente: a arte tem lugar na rotina diária das pessoas. Um mural artístico não é decoração. É um ponto de cor, de identidade e de reflexão que humaniza o ambiente urbano e faz com que as pessoas olhem para a própria cidade com outros olhos.
OPL: Qual a importância de eventos como o projeto “Leme em Cores” para o município, as crianças e a população de maneira geral?
F.A.: Eventos como o “Leme em Cores” têm uma importância que vai muito além da estética. Quando transformamos um muro abandonado de 100 metros em uma galeria a céu aberto, estamos fazendo várias coisas ao mesmo tempo: resgatando a identidade da cidade, revitalizando um espaço que a população havia deixado de ver e mostrando que Leme tem cultura — de dia, ao entardecer e à noite.
O mural retrata 18 pontos turísticos da cidade em uma composição panorâmica que começa em um amanhecer e termina em uma noite, em uma narrativa visual contínua. A escolha técnica de trabalhar com 31 pontos de fuga e uma distorção sinuosa — semelhante a uma lente olho de peixe — cria uma experiência perceptiva na qual o observador é convidado a ser enganado de forma prazerosa: o plano bidimensional do muro passa a sugerir profundidade, movimento e perspectiva. Essa sensação não exige conhecimento técnico de arte para ser sentida — ela acontece antes da compreensão. E é exatamente isso que buscamos: que a arte chegue primeiro pela emoção.
Para as crianças, o impacto é ainda mais significativo. Ver arte de qualidade no espaço público — produzida por artistas locais, com técnica, com intenção, com história — é uma forma de mostrar que aprender arte não é supérfluo. É essencial. Numa era em que a inteligência artificial replica formas e cria imagens em segundos, a grande questão é: o que nos resta de humano? A resposta está na sensação. Na capacidade de criar algo que toca, que emociona, que marca a experiência de quem passa. Isso nenhuma IA faz — porque sensação vem de quem viveu, de quem sente, de quem habita o mundo de carne e osso.
OPL: O Espaço Fábio Andrade ocupa o prédio onde antes funcionava a Locadora Luvizotti. Como é estar num espaço que difundiu cultura por 25 anos?
F.A.: Esse espaço carrega muito mais do que história recente. Antes de ser a Locadora Luvizotti — que foi a maior de Leme e difundiu cultura, histórias e imaginação por mais de 17 anos — esse lugar era um quintal. E era o quintal onde eu brincava quando criança.
Existe algo de profundamente simbólico em ter voltado para esse mesmo espaço décadas depois, não para brincar, mas para abrir as portas para que outras crianças venham brincar — de arte, de criação, de descoberta do próprio estilo, de habitar o processo artístico sem pressa por resultado.
A Locadora Luvizotti fez história aqui: distribuiu histórias, despertou imaginários, apresentou mundos novos para gerações de lemenses. A EFA tenta fazer o mesmo por outro caminho — não com filmes, mas com lápis, pincéis, tintas e lanterna. Não com histórias prontas para consumir, mas com histórias que cada aluno cria com as próprias mãos.
É uma alegria imensa e uma responsabilidade que carrego com orgulho: manter vivo esse espaço de cultura, agora com uma nova linguagem, mas com o mesmo propósito de sempre — fazer com que as pessoas sintam que a arte tem lugar na vida delas.
*Estagiário colaborou sobre supervisão de Ricardo Missão.
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