De Leme a Paris: lemenses lançam disco “Acervo de Afetos” e transformam memórias em música brasileira aos palcos internacionais

crédito foto: Arquivo pessoal/ Divulgação

VIVENDO EM PARIS, IDEALIZADOR BRUNO DOZZI LEVA O JAZZ À BRASILEIRA SO EUROPEUS. O que começa como um álbum de música instrumental termina como uma espécie de álbum de memórias. Em “Acervo de Afetos”, primeiro trabalho autoral de Bruno Dozzi Tezza, lembranças, amizades, homenagens e referências de sua trajetória ganham forma musical e atravessam o Atlântico para chegar a um dos tradicionais palcos de jazz de Paris.

O lançamento está marcado para 17 de setembro de 2026, no Sunset Sunside, na Rue des Lombards, em Paris. O projeto reúne músicos do Brasil e da França e tem na direção artística o também lemense César Roversi. Entre os músicos participantes estão Paulinho Leme, no acordeon, César Roversi, no sax soprano, além de Tiago Mecatti, na bateria, e Nemias Santana, na guitarra. A capa é assinada por Max Gomes.

Um disco construído a partir de pessoas

Disco acervo de afetos De Leme a Paris: lemenses lançam disco “Acervo de Afetos” e transformam memórias em música brasileira aos palcos internacionais Cidade | Cultura | Leme

O próprio título do álbum ajuda a entender a proposta. Para Bruno, “Acervo de Afetos” é uma maneira de reunir e preservar pessoas e experiências importantes de sua trajetória. Todas as faixas são inspiradas ou dedicadas a alguém nascido em Leme. O disco, inclusive, já pode ser ouvido em uma plataforma online, basta acessar: https://open.spotify.com/intl-pt/album/7pV10whb7qkXDUcyACpK7n?si=F5Yg- ou acessar o canal de Bruno Dozzi no Spotifty, e conferir todas as composições.

A primeira faixa, “É Dozzi pra Brunão”, é um samba composto por Gustavo Bombonato e dedicado a Bruno no aniversário do músico, quando os dois ainda dividiam uma casa durante o período de estudos no Conservatório de Tatuí. Já “Armas de Vigilância”, inspirada em um acidente doméstico, é dedicada às vítimas da violência armada.

O primeiro single, “Forró da Casa Nova”, é uma homenagem à irmã Caroline e a Zé Augusto. “Uma Balada com o Gê” foi dedicada ao saudoso guitarrista Geraldo Roque Filho, enquanto “Victoria” nasceu como um presente de boas-vindas a Victoria, Ícaro Godoy e sua família.

O álbum ainda traz “Mme. Rosin”, um jazz swing dedicado à companheira de Bruno, Priscila Rosin, e “Zero Grau”, composição de Maurício Carrilho dedicada a Netão Cardoso, ligado à preservação da música brasileira em Leme e colaborador da Semana Seu Geraldo.

“Forró da Casa Nova” une Bahia, interior paulista e improvisação

A escolha de “Forró da Casa Nova” como primeiro single também revela a diversidade de referências presentes no trabalho. Bruno viveu durante seis anos na Bahia, período em que ampliou seu contato com ritmos como xote, xaxado, baião e frevo, além de participar de festas de São João.

A aproximação com o jazz acontece principalmente pela liberdade de improvisação. Para o músico, esse elemento não é exclusivo do jazz e também está profundamente presente na música brasileira, especialmente na trajetória de artistas como Hermeto Pascoal e na chamada Música Universal.

A faixa também carrega uma forte identidade do interior paulista. Paulinho Leme e César Roversi são de Leme; Tiago Mecatti é de Araras e Nemias Santana, de Araraquara. Segundo Roversi, os músicos têm em comum a passagem pelo Conservatório de Tatuí, em uma época em que a música brasileira tinha forte presença no ensino e na prática musical.

Para o diretor, essa experiência ajudou a formar a linguagem que aparece no disco.

César Roversi: “O Bruno chegou com a história”

Na direção artística, Roversi teve o desafio de transformar as composições em uma obra coesa. Segundo ele, a direção não nasceu de um planejamento prévio, mas foi construída durante apenas dois ensaios antes da gravação.

A maioria das músicas é de Bruno. As exceções são “É Dozzi pra Brunão”, de Gustavo Bombonato, e “Zero Grau”, de Maurício Carrilho.

Roversi explica que seu papel foi organizar as composições para que o conjunto tivesse unidade e narrativa. Para ele, um álbum não deve ser apenas uma coleção de músicas, mas precisa construir uma história por meio da linguagem musical.

O processo de gravação foi particularmente intenso. Os músicos ensaiaram na quinta-feira à noite e durante toda a sexta-feira, antes de gravar no sábado e no domingo. Como muitos arranjos ainda não estavam completamente definidos, parte das decisões precisou ser tomada durante o próprio processo.

Além da direção, Roversi também participou como músico, o que tornou o trabalho ainda mais desafiador.

Uma música brasileira entre Leme e Paris

A proposta também estabelece uma ponte entre diferentes experiências culturais. Roversi resume a preservação da identidade brasileira em uma combinação entre composição, arranjo e músicos capazes de executar essa linguagem.

O resultado dialoga diretamente com a tradição musical brasileira, mas encontra espaço em Paris, cidade que possui forte relação com gêneros como choro, samba e forró. O álbum também estabelece uma aproximação com referências francesas: em “Mme. Rosin”, Bruno faz uma alusão ao Jazz Manouche.

Bruno, por sua vez, observa que o termo “jazz brasileiro” é utilizado na Europa de maneira bastante ampla para definir diferentes formas de música brasileira instrumental com forte presença de improvisação. Para ele, “música instrumental” seria uma definição mais precisa, embora reconheça que “Brazilian jazz” ajuda o público europeu a compreender previamente o universo sonoro que encontrará.

Leme estará em um dos palcos mais tradicionais de Paris

Para César Roversi, o local escolhido para o lançamento amplia a dimensão do projeto. O Sunset Sunside é uma tradicional casa de jazz de Paris, por onde passaram nomes como Jaco Pastorius, Wynton Marsalis, Lee Konitz e Ravi Coltrane. Roversi também cita referências históricas ligadas ao espaço, como Miles Davis e Herbie Hancock.

Por isso, o diretor considera especialmente significativo que o primeiro álbum autoral de Bruno seja apresentado naquele palco. “Leme estará nesse palco, com um trabalho de música instrumental”, resume Roversi.

A conexão com a cidade de origem, aliás, não está apenas nos músicos envolvidos. Para Bruno, levar o disco à Europa é também uma maneira de carregar consigo parte de sua própria história.

O lançamento reunirá, inclusive, amigos lemenses que viajarão da Inglaterra, Suíça e Alemanha para acompanhar a apresentação. A expectativa do músico é proporcionar ao público um momento de escuta e conexão consigo próprio, em meio à rotina de uma das grandes capitais culturais do mundo.

Um álbum que também provoca uma reflexão sobre a cultura de Leme

A chegada de “Acervo de Afetos” a Paris ganha ainda outro significado quando observada a partir de Leme. Para Roversi, o projeto demonstra que a cidade possui artistas capazes de alcançar espaços importantes do cenário internacional, mas ainda precisa avançar na construção de políticas permanentes de incentivo à cultura.

O diretor defende maior investimento e uma estrutura cultural mais ativa no município, com programas que ofereçam oportunidades para artistas locais e permitam que a produção cultural lemense alcance novos públicos. Para ele, iniciativas como a Semana Seu Geraldo são importantes, mas insuficientes diante do potencial artístico da cidade.

A crítica acompanha uma constatação: antes mesmo de chegar a Paris, o álbum já funciona como uma vitrine de Leme. Suas músicas carregam nomes, histórias e relações construídas na cidade e transformadas em uma obra que agora ganha dimensão internacional.

E quando o disco chega a Leme?

Ainda não há uma data definida para uma apresentação de “Acervo de Afetos” em Leme. Bruno afirma, porém, que seria especialmente significativo apresentar o trabalho na cidade onde parte dessa história começou e, se possível, com os mesmos músicos que participaram da gravação.

Assim, o caminho do álbum é também simbólico: nasce de afetos e memórias ligados a Leme, passa pelo interior paulista, encontra referências construídas na Bahia e ganha forma entre músicos brasileiros antes de chegar a Paris.

No dia 17 de setembro, quando Bruno subir ao palco do Sunset Sunside, a apresentação não será apenas o lançamento de um primeiro álbum. Será, também, a apresentação internacional de uma história musical construída a partir de pessoas, lugares e memórias — muitas delas com origem em Leme.

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